Começamos devagar. Depois de uma noite (e manhã) de sono mais que comprida, levantei ontem de supetão - tinha de buscar os cds graváveis para levar na viagem - porque nenhuma estação de rádio vai fazer o nosso roteiro. Voltei ansioso pra começar a arrumar as coisas. Sei que, depois de horas conferindo itens de uma lista que precisava ela mesma ser conferida, partimos às dezesseis horas de Porto Alegre.
Já na Freeway, a caminho do litoral gaúcho, fiquei com uma puta vontade de descobrir o que tem naquelas plaquinhas de SOS que tem nos acostamentos da autoestrada. Como o objetivo dessa viagem é não traçar objetivos fixos e nem limitar as nossas vontades, paramos num desses SOS.
Ali tirei uma foto. Era um botão. Acima do botão, um cartão de guincho. Baita marketing, não?
| Foto: Lucas Reis Gonçalves |
Quando voltamos pro carro, meu pai decidiu trocar de lugar comigo. Medroso, ele ficou a dar dicas de direção (lembrando que tenho habilitação há quase quatro anos). Depois de algumas aulas do autoprofessor Geovane, atravessamos a fronteira entre o nosso país e Santa. Paramos em Araranguá para tomar um café-com-leite e, a frente do restaurante, já descansava a Véia, uma cadela que não desmentia o seu apelido. Quem nos disse seu nome foi o mendigo que trabalhava também na frente do já dito restaurante.
| Não descuidado, esperei a Véia abrir aquele bocejo pra minha câmera. Não deu outra. Pá-pum. (Foto: Lucas Reis Gonçalves) |
O café tava uma beleza. Um pediu pão de queijo, o outro um pastel de quatro desse. As cortinas estavam fechadas, mas o sol se mostrava presente presente por detrás delas. Não por acaso, estávamos juntos a ela. Como já era tardezinha, o garçom decidiu deixar a luz banhar o lugar. E que puta banho!
Até comentei com o careca:
| Carros em Laguna. (F: Lucas Reis Gonçalves) |
No carro, o Seu Gonçalves resolveu retomar o que é dele: a direção.
Andamos mais alguns (bons) quilômetros e, em Laguna, pegamos um longo engarrafamento. E, como já disse, nessa viagem não há espaço para desvontades. Quem nunca pensou "porra! eu correndo ao lado desses carros chego mais rápido que eles!"? Pois é. Foi o que pensei. Mas dessa vez não impedi esse desejo de se ver física e propriamente realizado.
Com a câmera na mão, disse para meu pai que iria sair e fazer isso. Rindo ele não acreditou. Besteira: só me incentivou. Resultado: saí do carro de pé no chão e corri pelo acostamento (desviando de motos e carros malandros que trafegavam por ele) até me ver longe do astra do qual saí.
Depois de ser ultrapassado por todos pelos quais passei e ter de pedir pro velho parar logo a frente, ainda num acostamento, ganhei a porcaria do dia engarrafado por uma besteira - uma vontade não sufocada.
Seguros pela caixa do automóvel agora, andamos até a cidade de São José, "uma Canoas para Florianópolis", como diz meu pai.
Num hotel de beira de estrada, chamado O Cruzeiro, decidimos passar a noite. Quem nos atendeu foi um alemão de sotaque carregado - um catarina cantador do seu estado.
- Oitenta reais a diária com café-da-manhã bem quentinho - disse o sr. ajeitando o carro na garagem. Enquanto ele dizia para meu pai ir para um lado, eu dizia o contrário, mas ambos não diziam o lado certo para o meu velho. Eu estava na traseira e o alemão na dianteira - ambos descoordenados.
Descarregamos o essencial para o quarto de duas camas e um banheiro simples e fomos para o centrinho da cidade de São José.
No caminho do centro, já notamos uma barraquinha de cachorro-quente enfiada num terreno de uma revendedora de automóveis usados. Passamos ela e fomos dar mais uma olhada pelo centro. Não havia mais nada. Além de uma pizzaria aberta, porém vazia, o que mais chamava a atenção era a calçada da cidade: toda ela projetada com o relevo facilitador para deficientes visuais - vulgos cegos. Decidimos voltar. O cachorro-quente pareceu de bom tamanho.
- Olá! O senhor ainda tá atendendo?
- Sim. Eu já atendo vocês. - respondeu o velhinho já sem sotaque (ou com sotaque de todos os velhos).
Atendeu um pessoal que tava num escort modelo antigo, voltou pra barraquinha trocar o dinheiro e, num passo mais lento que a sua conversa, deixou o troco na mão do caroneiro do carro.
Já sentados nos banquinhos de plástico dispostos a frente da barraca, perguntou:
- Completo?
- Sim. Mais que completo: completaço! - respondi.
Serviu o mesmo para meu pai e juntos devoramos aquele pão. Tava uma beleza. Humilde e bão! Bão o suficiente para um domingo às onze e meia da noite.
- Qual é o nome do senhor? - arrisquei perguntar, já que quero usufruir tudo dessa puta viagem.
- Lorceu.
- Quê? - ele já ria.
- Dorceu - repetiu. - é meio estranho, né?
- Hehe - concordei rindo, envergonhado por perguntar novamente, visto que não entendi o seu nome até agora. Sei que é Dorceu ou Lorceu.
Embaixo daquela corcunda branca, havia mais que um nome estranho. Sei que é clichê e lugar-comum, mas foda-se: tenho certeza disso.
Agora estamos no quarto d'O Cruzeiro. Meu pai a brincar no software GPS pro celular dele e eu a fazer o upload do nosso primeiro dia aqui no meu moleskine falso.
hehe.
O negócio agora é dormir pra botar a roda na estrada amanhã. Depois do café do seu alemão garageiro, temos de continuar.
Rumo ao Rio.
R.R.
| Geovane e Hurley no quarto d'O Cruzeiro. (Foto: Lucas Reis Gonçalves) |
Muito bom. Seu pai é uma simpatia.
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